Minha Norma Lúcia
Não sei quem já assistiu à peça ou leu “A casa dos budas ditosos”, escrito por João Ubaldo Ribeiro. Esse livro conta as façanhas e perversões de uma velha de 68 anos – sob seu ponto de vista único e exclusivamente. Ela, literalmente, comeu Los Angeles, Salvador e Rio de Janeiro ao longo de sua vida. É realmente uma obra maravilhosa, além de, sem pudor, ter me identificado descaradamente com a mesma.
Fiquei refletindo sobre isso. A velha devassa tinha uma grande amiga, a Norma Lúcia. Mais que uma amiga, era uma pessoa com a qual a velha se identificava e tinha uma inveja boa de sua vivacidade e desligamento para com o mundo dos julgamentos.
Minha Norma Lúcia se chama Lucilene. Quando a conheci, era semi-virgem, mas já uma louca. A Lú é o tipo de garota que não tem medo do que os outros pensam, tem personalidade e mais que isso, atitude. Hoje ela mora no sertão da Bahia e exibe seus scarpins coloridos por lá. Deve ser considerada uma louca varrida, mas eu não me importo, essa é a minha amiga.
Muitas vezes, ela foi a minha referência. De tudo. De mulher independente, apesar de nossas mil conversas, ela dizia que eu a libertei para a libertinagem. Eu posso até ter despertado isso nela, mas com certeza hoje ela é quem melhor faz uso de sua sexualidade à flor da pele. É a ela quem devo as minhas mil loucuras por São Paulo e Samber. Lembro-me de várias noites perdidas numa cachaçaria em São Bernardo, onde nós duas descobríamos o que era crescer e deixávamos ali, mesmo sem saber, de ser adolescentes.
Dos meus anos de 2004 e 2005 restam histórias. Enormes. E com ela ao meu lado. Histórias que escritores adorariam saber e que leitores se deliciariam com crônicas engraçadíssimas e picantes. Mas guardo cada momento no meu pensamento com uma saudade sem igual.
Se aos meus 68 anos eu citar alguém, que seja ela.
Mesmo com nossos conflitos.
A Lú tem problema com os homens. Ela tem um imã mesmo sem perceber, acho que mistura um charme com um sex appeal. Ela já brigou com todas as minhas amigas por homem, todas morrem de ciúmes dela e pedem incansavelmente que, quando a mesma está em SP, não a leve aos lugares, para não haver disputa. Com a Lucilene, consigo entender o ciúme das mulheres, as discussões bobas relacionadas a espaço e poder – Ela simboliza Afrodite, a sereia encantadora ou não sei ao certo mais o que. Ela não entende que é o tempo todo sedutora, até mesmo com meus antigos casos e namorados. Nunca duvidei de nossa amizade e hoje em dia apenas devo abrir os olhos, pois quando ela está por perto, ninguém segura!
Dedico esse texto aos nossos anos de amizade e aos que estão por vir.
Acho que meus leitores homens estão curiosíssimos não?
Escrito por Clareador Cerebral às 09h30
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