Se eu pudesse, eu sairia gritando certas coisas ao mundo, ainda mais quando se vive demais. Ontem me peguei pensando naquilo que não devia, nos momentos que tanto doeram e graças a Deus não voltam mais. Mas a questão é se permitir pensar quando não se deve. Estou cansada de não poder dividir, ou não mais, certas dores. Cansa-me acordar de madrugada aos prantos pedindo perdão por algo que não tenho culpa. Não agüento me olhar no espelho, quando aquela imagem já não é das mais agradáveis, enquanto deixo meu cabelo crescer e ele fica com cara de nada. A vida não é legal quando prega peças duras e novas, e a casa vai ficando desarrumada e eu perco o controle. Meu humor com hálito podre vagueia pela sala enquanto eu tento resgatar minha leveza. Meu mundo colorido tem se tornado sombrio e isso me desespera. Eu sou uma menina de cores fortes e que alegra a vida das pessoas, mas me sinto deprimida em escrever um texto tão cheio de reclamações. Basta-me o sorriso alheio, quando só acredito na hipocrisia. O rombo bancário dói, pois as mulheres fogem através de novos vestidos e sapatos, coisas que agora não posso fazer. Um dos livros que lia e adorava se perdeu no meio da bagunça, e o outro não me desce pela goela. Faltam frutas na cozinha e flores no ambiente, mas pelo menos os quadros enfeitam o meu dia. Chego cansada e o lixo da pia fede e eu questiono aonde vou parar. Passo na loja de roupas de cama e fico mais um pouco negativa no banco para dormir com um edredom novo e limpo. Tento alegrar-me, mas o cotidiano me sufoca e fico irritada com todos. Com ele. Com a toalha na sala, com as roupas espalhadas, com o cheiro de cigarro no banheiro e com o estresse. Mas eu o amo de verdade.
Mariana Perin
Escrito por Clareador Cerebral às 13h27
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Escatologias familiares
Já foi matéria de revista feminina, pauta de horas de conversa, assunto com médico: É fato, nós, mulheres, temos dificuldade para ir ao banheiro. Chega a ser escatológico falar sobre isso, mas como uma amiga minha diz, “se a mulher vai ao banheiro fazer cocô em qualquer lugar, isso é um diferencial competitivo!”. Segundo ela, essa é uma pergunta constante em entrevistas para contratar novos funcionários na empresa em que ela atua, famosa no mercado de marketing e incentivo.
Eu passei por um momento parecido. Aliás, sempre passo. Só vou ao banheiro de três em três dias. Às vezes, chego a ficar uma semana sem ir ao banheiro. Não tenho vergonha de dizer, juro! Tenho vergonha de sentir. Quando juntei os trapos com o Sr. Perinho, cheguei a ficar duas semanas sem ir ao banheiro. Tem alguma explicação lógica para isso?
Meu endocrinologista falou: Mariana, coma mamão e fibras no café da manhã. Tentei, e não deu. Depois de dois meses morando com o amado, eu fico horas no banheiro, lendo um livrinho, pensando na vida e visualizando a casa da minha mãe. Aliás, fazer cocô na casa da mãe é algo quase que epifânico. Dá uma segurança misturada com infância. Tem lugar melhor para pintar e bordar que na casa onde passamos tantos anos de nossas vidas?
Meu pai vai ao banheiro em qualquer lugar. Ele é daqueles que o intestino surpreende, é brincalhão. Me dá raiva disso.
Se eu pudesse, teria feito antes...
Mumis foi conhecer minha casa, depois de dois meses. Foi ela chegar, que consegui ir ao banheiro. Tive que ser sincera – contei ser a primeira vez que faço cocô de verdade em casa. Numa resposta singela, ela disse que em qualquer circunstância, ou eu pego o carro e vou pra São Bernardo, ou ela pega o carro e vem pra São Paulo. E como uma sábia mãe, disse que há 24 anos se preocupa comigo e com a minha saúde.
Que venha essa visita todos os finais de semana! Eu preciso ir ao banheiro!
Mariana Perin
Escrito por Clareador Cerebral às 10h53
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