Quanto você andaria, se não fosse de carro?
Quanto que você falaria, se não fosse o teclado?
Quanto você beijaria, se não fosse o monitor?
Quanto você escreveria, se não fosse a internet?
Quanto você se relacionaria, se você tivesse que encarar?
Você namora alguém e se aproximou cara a cara?
Eu namoro... E me orgulho disso. Chega de aproximações virtuais.
Campanha cartinha, mãos dadas e paquera 2007 a todos!
Mariana Perin
Escrito por Clareador Cerebral às 08h17
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Cara ou Coroa
Olhou para o lado, sem saber ao certo onde estava. Garrafas espalhadas pelo quarto desconhecido remetiam a uma nostalgia ruim; um ser desconhecido despido dormia de bruços, enquanto seu corpo não tinha o próprio cheiro. Passou a mão nos cabelos ensebados e não entendeu o que fazia ali. Tudo girava.
Vestiu sua roupa, perdeu uma meia, semidescalça, segurou suas botas nas mãos e por ali vagou. Ofereceram café da manhã na saída, mas tinha nojo de si mesma para alimentar-se. Parou na calçada e vomitou na sarjeta. Andou alguns passos, procurou a chave do carro e o celular. Nove chamadas não atendidas da irmã que esquecera. Entrou no carro, bateu a cabeça no volante, abriu os vidros e ligou o rádio. Tocava uma música desconhecida, mas daquelas que remete à mãe nas tardes de verão. Era tarde demais – a consciência falou.
Abriu a porta de casa e sem dar muitas explicações e foi tomar banho. O cheiro de borracha em suas entranhas a deixava aliviada, e a ausência de lembranças trazia um desespero sem igual.
A cena repetiu-se algumas vezes nos seus 20 e poucos anos.
Aos trinta e poucos, foi à reunião de pais e mestres de seu filho. Cumprimentou os professores e observava sentada todas aquelas mães e questionava-se acerca da educação e se era uma boa mãe. Um pai entrou na sala, beijou sua filha e olhou profundamente nos olhos daquela que estava sentada. Os dois cumprimentaram-se e ele ruborizou-se. Ela lembrou, Ele estava de bruços naquela manhã tão amarga. Esqueceu no minuto seguinte.
Olhou para o lado e não a viu por lá. Ficou com vergonha, pois seu sonho realizou-se de uma forma tão triste, porém, seus olhos brilhavam de alegria. Com dor de cabeça levantou-se, juntou as garrafas de seu vinho preferido espalhadas pelo chão no canto do quarto. Todo seu dinheiro economizado acabara ali, no vinho caro e no quarto barato. Ouviu o chuveiro ligado, abriu a porta do banheiro para dizer “oi”. Estava vazio. Somente um pé de meia perdida boiava.
No quarto não restava nada, somente aquele cheiro de flor preso em seu corpo. Voltou para casa, tomou um banho demorado. Pensava que, em uma semana, a veria novamente. Ligou para todos os amigos, questionando ou tentando adivinhar onde estaria aquela que, há tanto tempo era sua inspiração. No caderno, palavras se confundiam nas linhas e ele, com o coração afoito, descobria a verdade de si mesmo.
Na semana seguinte, Ela não estava lá. Voltou por mais três semanas, em todos os dias. Nunca mais apareceu.
Como bom pai de trinta e poucos anos, acompanhava todo o processo escolar da filha. Sempre se socializou, fazia parte da associação de pais e mestres, treinava os times e era feliz. Naquela reunião em especial, preparava-se para condecorar a filha e conhecer colegas da mesma situação. A viu sentada, ruborizou-se e lembrou das vezes que a esperou no mesmo bar. Lembrou de seu corpo e do gosto do vinho nunca mais degustado, para não lhe trazer memórias amargas. Era um sobrevivente dos românticos e sua vilã aparecera diante do presente. Ao chegar em casa, abraçou sua mulher e chorou.
Mariana Perin
Escrito por Clareador Cerebral às 14h31
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