Pagodeando até o sol raiar
Foi-se o tempo em que ninguém discriminava nada – desde roupas a gosto musical. Foi-se para bem longe. Quando eu era menor, tinha mais ou menos uns 13 anos, conheci um rítmo chamado pagode. Sempre, sempre e sempre tive um gosto musical interessante, com referências de Mutantes, Lloyd, Secos e Molhados, Cazuza, Itamar Assumpção – enfim, meus pais fizeram muito bem em me educar culturalmente.
Eis que me vejo numa adolescência caiçara. Na época, ia para a praia todos os fins de semana, e minhas histórias de criança quase mulher foram construídas ali, num paraíso chamado São Sebastião. Quem nunca se viu paquerando escondido, ouvindo música de madrugada e sonhando com cenas de filme, ou então o primeiro oi, o primeiro olhar, a primeira vez em que percebem que crescemos e não somos mais moleques.
Sim, moleques! Era um menino. Nunca gostei de cabelos compridos, e na minha infância caiçara, era mais uma a jogar bola e roubar jaca (e manga, goiaba, maracujá...). Cresci em meio aos meninos de um bairro simples chamado “São Francisco da praia”.
Já adolescente; mais bonita, mais magra, mais menina e mais mulher, vivi anos áureos, dignos de qualquer brasileiro. Eram bailes, festas, conversas na frente da sorveteria, paqueras intermináveis na quadra. Era a vida de uma jovem que começava a entender algumas coisas ali. Enquanto isso, minha vida em São Paulo era mais cultural – Músicas, livros, cinema e me apaixonava mais e mais pelo teatro. Mas na praia, quando chegava sexta feira, só me preocupava em ser normal (e não a precoce pretensiosa a gênia da sala de aula). Quando chegava em São Sebastião, me tornava outra, e ali, fugia da minha realidade. Ali, conhecia o sangue brasileiro chamado samba! Pode parecer uma piada, mas quando ouvi Fundo de Quintal pela primeira vez, me apaixonei pela boemia carioca. Isso conflitava com meu gosto musical roqueiro a la garoa paulistana e me sentia dividida, mas nada que um coração Brasileiro não possa abrigar! Lembre-se bem que, ao meu ver, esse tipo de pagode é bom. Infelizmente, algumas tranqueiras confundiram pagode com pop brega music. Foi o caso do pós SPC em espanhol, por exemplo. Mas isso não vem ao caso.
Esse carnaval me fez adolescente novamente. Me fez uma criança ali, numa roda de samba, numa bateria de escola de samba. Fui novamente a moleca com seus amigos de infância, mas desta vez, as piadas eram bem mais sacanas. Dancei até não agüentar mais minhas pernas, e como de praxe, passei mais um carnaval no hospital, acompanhando mais uma vez a desidratação de alguma amiga (que não bebe!). Mas foi bom, muito bom, esplêndido, a ponto de me deixar com saudades.
Queria estar no nosso pagode de mesa, nosso (meu e da minha história)! Aquela que lembrou dos tempos de futvolei, carnaval de rua nota 10, bateria da Acadêmicos de São Francisco. Um tempo que não volta atrás, mas relembrei, parti, chorei e voltei para a minha realidade. Meu último dia de carnaval se resumiu em uma mesa com “saudade” e muito pagode. Voltei uns dez anos e isso me fez um bem sem tamanho.
Agora você me pergunta: O que é sua vida real? Trabalho, contas, livros, sexo e Rock and Roll. Já que não poderei ir ao pagode caiçara, que venha o show do Nervoso, do Wonkavision e de tudo que faz parte do meu cotidiano. Quem sabe no final do mês mato a saudade do meu paraíso... Quem sabe...
Escrito por Mariana Perin às 22h11
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